quinta-feira, 9 de agosto de 2012


 O sol de Agosto

Que me ofertem planaltos no mel dos teus olhos
Quero avançar no lago tranquilo onde repouso
Sempre que a saudade aperta
Quero ir mais além na imaginação desperta
Na grandeza de um dia de Verão

Que o vento me traga o som da tua voz
Para que assim possa repensar o nós
Sou tão pequenina perante a grandeza
Da mente que rebuscando busca a tua imagem
O sol transporta raios de luz, miragem
No deserto do meu dia que anseia liberdade
Para te ter sem amarras ou compromissos
Os tempos são submissos e eu penso

Que a vida corre apressada amanhã olharei
Repararei como foi curta a estrada
Que me ofertem giestas e saramagos
São fortes à intempere agreste
Hoje o tempo é meu aleado, a chuva vem por aí
Igual à saudade que descai do meu olhar
Aí de mim, uma lágrima rebelde chegou por fim
Anuncia chuva no verão que é tórrido
Ofertem-me planaltos
Quem sabe assim vislumbre o teu rosto
Brilhando nos raios deste sol de Agosto.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Querer


Num tanto que sinto
Um querer intrincado
Mas nunca desminto
Nem dou terminado

Meu querer é modesto na forma de ter
É caso pensado momento vincado
Na mente e no ser

Meu querer é tormento por breves instantes
É jura sentida às vezes corrida
Definha sozinha para logo se erguer.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Presença


Na imperfeição que me rege
Quero-te
Com a clarividência dos deuses
Com a suavidade das almas
Que sobrevoam às vezes
Estas planícies do sul

O meu vício és tu
Meu aconchego na noite
Meu alimento e jejum
Só peço a deus que pernoite
Esta presença constante
E que a certeza se afoite

A ir sempre mais longe
Num desbravar paralelo
O meu vício és tu
Que seja sempre singelo
Este aspirar igualável
Aos grandes lagos do sul
Minha firmeza imutável

Quero-te
Com este crer que elege
O teu abraço apertado
O manto que protege
O meu corpo cansado.



terça-feira, 17 de julho de 2012

Apanágio


Transpondo a existência paralisada
num instante gélido e compacto.
Nómada pela berma da estrada
vai a sombra fugindo do seu fado.

Desliza sobre si estranho ar abafado
é a morte da vontade trauteada.
Corre-lhe nas veias o sangue embriagado
descai-lhe aos pés em altivez atracada.

Ao que arbitra ter e não encontra
sol de pouca monta o pretende, almejado
é o momento de voltar ao renegado.

Volta e meia depressa se dá conta
que fugir não passa de presságio.
A vinda precavida peia a treva em apanágio.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Entre o meu e o seu



Fiquei no meio de nenhures
À beira do precipício
Vislumbrei algures
O instante propício

Para fugir de mim

Indaguei um instante
A minha sobrevivência
Descobri-me farsante
Tamanha a pertinência

Por fugir de mim

Aproximei-me da beira
Hesitando enfim
Segredou-me a asneira
Queres que seja assim

Fugires de ti

Dei dois passos atrás
Segurei-me na razão
Saltar não fui capaz
Coisas do coração

Encontrei-me por fim

Na sombra que estava ao lado
Ao meu peito ofegante
O sorriso do meu fado
Desnudou-se confiante

O retorno deu-se assim

Sequer o salto foi dado
Sequer reneguei paixão
Por fim caminho traçado
Entre o meu e o seu por condão


terça-feira, 10 de julho de 2012

Amor amigo



Pega-me ao colo
Quero adormecer no embalo
Dos dias pequenos
Tudo é de menos
Quando a saudade ocorre

Corre apressada a vida fugidia
Perde-se tempo, o que não temos
Os cabelos brancos são de neve macia
A curvatura das costas relembra que somos
Sombras frágeis e fugidias

Numa passagem emprestada
Numa força que não é nossa
Vivemos
Esquecemos que a encosta
É fácil de subir
Depressa chega o dia de partir

Por isso pega-me ao colo
Afaga os meus cabelos
Adormece comigo
Amanhã meu amor amigo
A passagem descampou
Só um chorará o instante olvido

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dores na alma




Caiem aos pés lágrimas vazias
O barro ingrato surripia ao tempo
O que não tenho o que não vi
Após caírem uma ligeira mancha
A frescura fecunda na terra árida
Onde os sonhos feitos espantalhos
Espantam pássaros
São corvos negros que buscam carniça
Cobiça na mente humana

Não me olhem como se louca fosse
Apenas busco o que não tenho
Sou como o rebanho buscando a água
Na calmaria do campo seco
A diferença está na mágoa
É sozinha que adormeço

Caem aos pés pingos de sal
Sem esperança no quero ser
Dores na alma não me fazem mal
Sempre tenho do que escrever.

Antónia Ruivo.